terça-feira, 9 de outubro de 2007

Briga/Monólogo

Correu em direção a fachada estragada da Rua Nove, no meio da escuridão, tateou o bolso da calça até sentir seus dedos fecharem na chave de casa. Transpirava demais, parecia um porco.

"O que você fez, o que você fez? Não, não não." chorava ele em um tom muito baixo.

Abriu a porta da casa quase sem fazer um ruído, estava desesperado, desnorteado, sua figura magra e pálida despertava uma pena patética, quase que religiosa. Ele andou até uma mesa e acendeu uma vela.

"Por que? Por que?" ele chorava cada vez mais.
"Toda vez a culpa é minha, não é?! Parece que só eu que faço as desgraças. No começo você chora, diz que está errado, mas no final me parabeniza e de novo, sou eu que levo nas costas." disse alguém.
"Não, mas não é assim, o que você fez está errado"
"O que eu fiz? Não, está errado. O que VOCÊ fez."
"Eu não fiz nada, eu a amava, sabia? Você não tinha o direito de tirar isso de mim"
"Eu não te entendo, porque você joga a culpa pra cima de mim?! Meu amigo, pensa um pouco, usa a sua cabeça, para de ser idiota. Do que você lembra? Me conta do teu dia!"

"Não te entendo" disse ele, chorando cada vez mais.
"Ah, agora me diz que não sabe de nada?! Você não é idiota, pensa um pouquinho." alguém ria alto.

Fechou os olhos e lembrou de sua rotina. O trabalho infeliz, as noites solitárias assistindo televisão, o sexo vazio com puta. Tudo igual, tudo normal. Não viu nada de estranho, até lembrar do mais importante, Julieta.
Julieta não deve ser seu nome verdadeiro, puta nunca dá o nome real. E isso que o atraiu, o sexo com uma mentirosa que o obrigava a enfiar a mão na carteira e estender algumas notas para a criatura. Não é segredo, ele ama Julieta, ou amou. Embora pagar honestamente e não ser feio, Julieta é de fato, uma puta. Amor não existe, porque não sustenta bem.
Sim, ele lembrava de Julieta. Lembrava de ontem, de tudo. Ela queria parar "Dói, pára.", mas ele não parou. Se ela não podia ser dele, de quem mais seria? Se em vida quis ser vagabunda, na morte vai virar monogâmica.
E foi o que ficou, Julieta caiu no piso frio sem miolos e sem gritar.

"Eu não fiz isso, foi você. Você sabia que ela foi embora! Foi você, seu louco! Pirado!!"
"Pirado?! De quem é a arma? Quem comprou as balas?! QUEM ESTÁ SUJO DE SANGUE DOS PÉS A CABEÇA!? Foi você! O LOUCO AQUI, É VOCÊ, SÓ VOCÊ!" riu o outro.
"Eu não sou louco, eu não matei ninguém!!!!"
"Ah, não matou ninguém? Pensa melhor, querido. Você, eu, nós. Não existe plural, não existe eu, existe você, existe tua mente de pirado. O doente mental aqui, é você que fala sozinho!"
"É mentira, cala a boca. VAI EMBORA"
"Eu vou sim, mas abre o armário do teu quarto antes e me diz o que você achou lá. Se me provar por a+b que não foi você, eu vou embora agora!"

Ele correu até o armário e sentiu um cheiro podre, vomitou de nojo e de medo. Mas abriu o armário e viu o óbvio.
Julieta estava lá, nua, roxa e sem miolos e do lado do corpo, viu o revólver descarregado, quase que acenando para ele.
Estava lá, foi ele que matou. O outro estava certo.
Correu até a sala.

"MENTIROSO, MENTIROSO! FOI VOCÊ! FOI VOCÊ!"
"Olha pra você, chorando que nem uma mulherzinha. Presta atenção em você, de quem é esse sangue ai na tua mão?"

Batia os punhos no concreto, onde já se encontrava uma depressão na parede. Estava com raiva, estava triste. Chorava sozinho, e muito. Quase esperava que as paredes tivessem misericórdia de seu erro cruel, ele chorava, quase esperando que alguém o ajudasse.
Mas estava sozinho.

"Para de chorar, já está tudo explicado. Eu sou você, você é eu, nós somos um. Quem matou essa mulher foi você, por livre e espontânea vontade."
"Você viveu minha vida?" disse ele, com as mãos no rosto.
"Vivi sim, assim como você viveu a minha. Não entende?"

Sentiu sua cabeça funcionar rapidamente. E percebeu. Ouvia citações de livros que nunca leu, teve memórias que nunca guardou. Não era quem pensava ser, viveu a vida de outro fingindo ser si mesmo.
Ajoelhado, levava as mãos ensanguentadas ao rosto, soluçava como uma criança, quase estendendo as mãos procurando perdão no teto de casa. Seu choro era de louco, assassino, vagabundo, doente, que ecoava pela madrugada, perfurando até a alma. Sem perceber, cantava a melodia dos desesperados.

"Vai, corre lá na rua falando que tem um louco na tua casa..."
"CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA! CALA A BOCA!"
"Para de chorar por algo que já foi devorado pelas horas. Se preocupa com as conseqüências, treina tua cara de santinho, cria logo um álibi. Tribunal gosta de doido ou mocinho. Escolhe o teu papel."
"Eu não vou enfrentar merda nenhuma. Aqui é entre você e eu."
"Vai fazer o quê? Me matar?" riu o outro.

Ele queria dormir, queria pensar. Andou até a cozinha e achou a navalha abandonada em cima da pia. Sem pensar, afundou o metal no braço até jorrar o sangue quente e pegajoso.
Sentia seu coração desacelerar, já não latejava mais nada, o remorso sumiu.
A dor virou uma seda, que faz os dois adormecerem.

Dormiu pouco, mas acordou sozinho.
Abriu os olhos e notou que sua outra face sonhava que nem criança. Sabia disso, pois mesmo acordado acompanhava os sonhos do outro.
Agora a vela estava quase terminando, ele via sua sombra dançar pela sala. Quase como um baile solitário.

Caminhou até o espelho e viu, pela primeira vez, seu rosto sem o outro lado.
Quase sorriu.
Quando já apertava o gatilho contra sua fronte, escutou o outro:
"Morre e eu te sigo até o inferno"

Morreu com esse pavor.