Quando selei meus olhos e me banhei em suor frio, sonhei com tua voz pinicando meus ouvidos.
(Então me diga para acordar e parar de colocar minha cabeça para funcionar. Pois sonho para acordar)
Lá no infinito, brinquei de ser deus, vomitando estrelas tão pontudas que chegaram a cortar minha garganta, regurgitei até formar constelações.
(Acordo para sonhar e sofro com os olhos bem abertos, dias sem dormir até cansar)
Passando madrugadas, virando poeta, fazendo meu braço papel e a navalha, caneta gostosa de se usar. Dissipando a dor em palavras, frases e parágrafor inteiros. Escrevo minha história, rabisco os erros, até anestesiar.
E continuei dormindo acordada.
domingo, 9 de dezembro de 2007
sábado, 8 de dezembro de 2007
Adelaide
20 anos. Foram sumindo, como uma imagem sendo engolida pela estática. Perdi meu foco, minha pátria e até mim mesma. Minha cidade mudava, pessoas estranhas dividam a mesma fila do banco, tudo foi sumindo aos poucos, quase de propósito. A Era da Locupletação, o deserto amarelo no Amazonas, a nossa free-way fossilizada, tudo isso abalou qualquer mente sã. Mas continuei alheia, até que um dia, todo ódio e negligência de meu país me sujou por dentro e por fora.
Ainda não sei direito a explicação verdadeira. Nunca se preocuparam em esclarecer. Era desesperador ver meu filho, ou um plano de filho morrer em uma mesa, cheia de sangue e placenta.
Eu dei um nome para essa época, quase como uma adição clandestina a nossa história.
Chamei essa época de "O Tempo das Crianças Esquecidas".
Souza, meu marido, nunca mais foi o mesmo, desde o dia que tivemos que levar o pequeno para longe. Eu vi lágrimas nos olhos de meu marido, eu sei que, a partir desse dia, ele começou a se deteriorar.
Por causa do filho, da carta que nunca chega, do calor apocalíptico, da compulsória e do emprego sem utilidade. Depois desse dia no porto de Santos, esperei por notícias do menino, mas nunca cheguei a receber uma carta.
Souza também esperava.
Eu amo e odeio Souza, só vivia nos extremos. Havia dias que implorava para voltarmos para cama e outros que sentia nojo daquele homem me tocando no ombro. Quando recebeu o furo, percebeu que podia brincar de marionete com qualquer um que esteja assustado. E isso não me agradou. Parei de ser ambigua, passei a odiá-lo.
Já vi muita gente com aquele furo, mas ver meu marido com aquilo tirou qualquer normalidade que eu lutava para obtê-la todo dia.
Eu sei que errei, não quis tentar compreender meu marido, mas ele também nunca perguntou se eu estava bem, se eu tinha medo. Eu queria fugir de tudo isso.
Souza de homem previsível, passou a ser um louco. Aquele furo na mão me dava ódio, vergonha. E ele se recusava a cobrir aquela porcaria.
Na mesma noite, toquei A Patética. De raiva mesmo. Cada nota era um vômito de sentimentos guardados, resultado de anos de silêncio e dor.
Minha vontade era ter contado tudo, sobre nosso sobrinho, o baú, os calendários.
Mas eu continuei tocando.
No dia seguinte, ele saiu e não voltou de noite. Acho que morreu, ninguém mais sobrevive com esse calor e com os Civilitares de olho em qualquer cara estranho.
Escrevi um bilhete, não sei porque, mas caso Souza voltasse vivo, teria uma explicação.
"Cedi o apartamento pro nosso sobrinho, não pergunte. Saia do apartamento antes que se machuce. A."
Abri a porta e fui embora.
Ainda não sei direito a explicação verdadeira. Nunca se preocuparam em esclarecer. Era desesperador ver meu filho, ou um plano de filho morrer em uma mesa, cheia de sangue e placenta.
Eu dei um nome para essa época, quase como uma adição clandestina a nossa história.
Chamei essa época de "O Tempo das Crianças Esquecidas".
Souza, meu marido, nunca mais foi o mesmo, desde o dia que tivemos que levar o pequeno para longe. Eu vi lágrimas nos olhos de meu marido, eu sei que, a partir desse dia, ele começou a se deteriorar.
Por causa do filho, da carta que nunca chega, do calor apocalíptico, da compulsória e do emprego sem utilidade. Depois desse dia no porto de Santos, esperei por notícias do menino, mas nunca cheguei a receber uma carta.
Souza também esperava.
Eu amo e odeio Souza, só vivia nos extremos. Havia dias que implorava para voltarmos para cama e outros que sentia nojo daquele homem me tocando no ombro. Quando recebeu o furo, percebeu que podia brincar de marionete com qualquer um que esteja assustado. E isso não me agradou. Parei de ser ambigua, passei a odiá-lo.
Já vi muita gente com aquele furo, mas ver meu marido com aquilo tirou qualquer normalidade que eu lutava para obtê-la todo dia.
Eu sei que errei, não quis tentar compreender meu marido, mas ele também nunca perguntou se eu estava bem, se eu tinha medo. Eu queria fugir de tudo isso.
Souza de homem previsível, passou a ser um louco. Aquele furo na mão me dava ódio, vergonha. E ele se recusava a cobrir aquela porcaria.
Na mesma noite, toquei A Patética. De raiva mesmo. Cada nota era um vômito de sentimentos guardados, resultado de anos de silêncio e dor.
Minha vontade era ter contado tudo, sobre nosso sobrinho, o baú, os calendários.
Mas eu continuei tocando.
No dia seguinte, ele saiu e não voltou de noite. Acho que morreu, ninguém mais sobrevive com esse calor e com os Civilitares de olho em qualquer cara estranho.
Escrevi um bilhete, não sei porque, mas caso Souza voltasse vivo, teria uma explicação.
"Cedi o apartamento pro nosso sobrinho, não pergunte. Saia do apartamento antes que se machuce. A."
Abri a porta e fui embora.
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